Por vezes, como forma de proteção, nos esforçamos por relegar ao esquecimento vivências que nos marcaram pelo mal. Apostamos na ideia de que a melhor forma de lidar com uma dor é justamente não lidar com ela, partindo do princípio de que a passagem do tempo tornaria um gradual enfraquecimento da lembrança, seu esmaecimento. No entanto, não é isso que acontece com algo que doeu de verdade. O silenciamento não faz com que a agonia se desfaça. Ao contrário, vai lhe concedendo cada vez mais força para que, tal como um fantasma, prossiga vagando pelos porões do nosso psiquismo.
A tentativa de encobrir uma história não faz com que ela se apague. Sofrimento ignorado é sempre sofrimento perpetuado. Passado mal resolvido se mantém exaustivamente presentificado.
Quanto mais se polpa o confronto com aquilo que dói menos se tem a possibilidade de construir recursos para lidar com ele. Seja lá do que se fez uma dor, vivência de perda, medo, vergonha ou culpa, é apenas quando nos propomos lançar olhar à ela e conceder-lhe algum sentido que se torna possível seguir em frente.
Há momentos em que as marcas que ficaram doem tanto que a evitação resta como única forma de enfrentamento possível. Nessas horas nada se consegue dizer. Enquanto esse for o caso, tudo bem. Apenas respeite seu tempo. Respire mais um pouco, tome fôlego e assim que der, abra qualquer frestinha de onde você consiga enxergar o que tanto te aterroriza. Isso certamente será o inicio da construção de um caminho que te permitirá tocar adiante.
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